Colecionar,

Um breve comentário

 

Nós somos cobertos de cascas e representações que construímos de nós mesmos.
E normalmente tentamos nos fazer representar por coisas que não são a nossa essência.
Por isso, é importante buscar o strip-tease das coisas para ir além daquilo que está representado.
E confrontar o nu de nós mesmos com o nu do mundo.

Tunga.

Muitas pessoas que conhecemos nos perguntam com curiosidade o que é ser um Colecionador de Arte. Trata-se de uma pergunta difícil e uma resposta simples é impossível. Resolvemos escrever esse texto para relatar nossa experiência de 20 anos e esperamos dessa forma atender esta demanda e incentivar o colecionismo de arte.

A maioria dos colecionadores se tornam colecionadores com o tempo…  você compra uma obra, outra, e outra … com o passar do tempo percebe que tem uma coleção nas mãos e passa a ser reconhecido como colecionador. O amor e a curiosidade pela arte crescem junto com a coleção: foi assim que aconteceu conosco. Dois momentos em nosso percurso foram paradigmáticos. O primeiro se deu quando as obras foram catalogadas por uma seguradora. Todos os certificados de autenticidade, fotos, medidas, etc. ficaram ordenados criando um conjunto coeso: o todo nos pareceu mais do que a soma dos elementos. Percebemos que a coisa era séria. O segundo foi quando tivemos a oportunidade de realizar o antigo sonho de conhecer a Patagônia Chilena. Ao chegarmos ficamos abismados com a beleza e a escala com que a natureza se apresentava.  Se Kant tivesse conhecido a Patagônia é provável que seu conceito de “sublime” fosse influenciado por aquele ciclorama vivo. O “fim do mundo” assemelhava-se muito a quadros vivos do romântico Caspar David Friederich! Percebemos que a arte era algo importante demais para nossas vidas: mesmo ali, longe das obras que amávamos, ela nos arrebatava e provocava discussões em nossos passeios a pé.

O costume de colecionar abrange um variado espectro que vai da numismática e da bibliofilia – talvez as mais antigas – às clássicas coleções de selos, carros, autógrafos, bonecas, coleções de souvenires de viagens, figurinhas, bolas de gude, coleções curiosas como as de taxidermia, dentes de tubarão, areias do mundo, as pedras de Goethe ou então até mesmo grampos de escritório. Mas o que definiria a coleção “de arte”? Cremos que colecionar arte é algo especial.  Não se trata de uma atividade simples. Não há associações de colecionadores ou padrões definidos para esse tipo de colecionismo. O mundo da arte é vasto e colecionadores precisam ter acesso a instituições específicas: galerias de arte, feiras, ateliês, fundações, grandes e pequenos museus, enfim, a uma série de lugares onde se faz, se pensa, se expõe e também se vende arte.

Colecionar arte é especial também na medida em que o processo de qualificação (e precificação) de uma obra é extremamente complexo (muito diferente de quando se trata de moedas, carros ou selos). Rilke, em sua “Carta ao jovem poeta”, fala de algo que poderia servir de conselho para jovens colecionadores de arte: “menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.” Para Rilke “uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente”. Assim, uma das tarefas do colecionador é pensar junto com o artista sobre as obras, na tentativa de encontrar uma justificativa para sua necessidade: é o exercício do que Valéry postula quando afirma que “o que chamamos de “Obra de arte” é o resultado de uma ação cujo objetivo finito é provocar em alguém desenvolvimentos infinitos.” Aí está uma bela definição que pode servir ao percurso de futuros colecionadores: os objetos de arte se desdobram infinitamente.

A respeito desse desdobrar podemos afirmar que nosso maior prazer foi perceber, com o tempo, que as coleções particulares são um elemento essencial de complementação dos espaços públicos/institucionais e também um meio fundamental para o acesso à arte. Isto se dá na medida em que colecionadores, ainda que tenham uma ótica individual sobre suas escolhas, sempre estarão nas suas aquisições em meio a um diálogo incessante e sujeitos a variáveis de gosto de um grande grupo que abarca galeristas, artistas, museólogos, curadores, diretores de instituições, etc. Muitas vezes a força de uma coleção empresta ao colecionador uma voz a ser escutada pelo mundo da arte. O privilégio que têm colecionadores de conviver com as obras em suas casas traz a contrapartida do compromisso com as instituições de arte, com empréstimos, doações, apoio aos artistas e seus projetos e criação de espaços próprios de exposição. Compartilhar a Coleção com países do Continente Africano ou da América Latina é um sonho que nutrimos.

Não há uma razão para ser colecionador, há muitas! Assim como não há um perfil único de colecionadores. Nossas preocupações existenciais, o lugar onde nascemos e vivemos, o percurso pessoal que teve que ser feito até o usufruir da alta cultura, tudo isso está implicado no colecionismo.

A arte é um problema, um enigma que se coloca diante de nós. O elitismo do colecionar é sublimado pelo profundo processo pessoal (sem intermediários) de reflexão e aprendizado necessários. Não há quem ensine arte: ela é por sua natureza, enigmática. Seu aprendizado se dá como abordagem metafórica e técnica, mas não leva ninguém ao seu âmago. Por isso nunca estamos satisfeitos! Ou como disse Braque, “A ciência tranquiliza. A arte é feita para perturbar.

Roberto Calmon e André Stock